Quando eu era criança, eu tinha quase tudo o que precisava. Eu tinha esperança de dias mais alegres do que aqueles que já havia experimentado; eu tinha sorriso, eu tinha alegria espontânea e sem motivo; havia em mim um brilho que não dependia da luz, uma forma de existir que não precisava ser explicada. Eu tinha olhos mais sensíveis, que não conheciam muito sobre julgamentos. Eu tinha “tempo”, os dias pareciam mais longos do que o “normal”, o que, de fato, era preenchido com tantas pequenas coisas que mal cabiam em si. E, antes de tudo, eu tinha inocência.

Eu tinha uma alegria que chegava não sei de onde, mas me lembro de que era cheia de esperança de dias melhores. Na verdade, eu não tinha tudo, mas criava a minha própria ilusão, pois já conhecia o meu inferno e precisava de mágica, uma forma silenciosa para sobreviver.

Eu tentava me satisfazer no som do vento, no carinho da brisa fresca, nas pétalas macias das flores, nos cheiros e nas essências; as roseiras bege, curiosamente sem espinhos, eram inacreditáveis. Lembro-me de que eu me perdia olhando cada pétala; ficava impressionada com a beleza… como o sol beijava cada ângulo, às vezes suavemente, às vezes com intensidade, deixando nelas um tom rosado… e ainda assim continuavam sendo roseiras. Como se, apesar das marcas, nunca perdessem a própria identidade.

Eu me encantava com as gotas de água nas folhas, com os traços únicos de cada folha e flor, que faziam cada forma ser o que era. Meus dedos percorriam esses contornos como quem tenta entender o mundo pelo tato. Eu me perdia nos olhos dos gatos e dos cachorros, tentando decifrar o que sabiam, cada pensamento… Queria saber se sonhavam, se pensavam, se criticavam, se eram conscientes da própria existência… Eu também fechava os olhos e imaginava o céu, o paraíso, e me perguntava: lá havia dores, gritos, tristezas e ausências? Se lá fosse tudo alegria, haveria monotonia?

Ah, eu já sabia entender o valor do contraste. Eu queria entender como a vida funcionava fora deste mundo, eu queria entender o desconhecido. Queria saber até onde o vento parava de assoprar, por que as cores do céu mudavam. Eu ficava encantada com a beleza do céu da minha cidade, com tons avermelhados, rosa e roxo, cores intensas e vibrantes. De maio a agosto, eram os meses mais lindos. A lua também me encantava com seus mistérios, como se olhasse para mim. Ah, como eu queria entender o universo além de mim e o que existia para além dele.

Eu também tinha medo, já que crescia em um lar religioso cheio de dogmas que, muitas vezes, oprimiam mais do que acolhiam. Eu temia o inferno e o julgamento. E, ao mesmo tempo, questionava: por que Deus não mudava o meu mundo e eliminava todas as tribulações, tristezas, dores e escassez que pareciam não ter fim? Eu queria devolver alegria àqueles que carregavam tristeza. Queria eliminar a minha própria tristeza e não entendia por que Deus não escutava minhas orações… Eu me escondia atrás da porta, abafava os gritos com as mãos, me abraçava, me escutava e me acalmava.

Eu queria o amor que não conhecia. Queria experimentar o novo, imaginar coisas novas. Abraçava a minha ilusão como meu único amparo. Sempre senti saudade de algo, de alguma coisa… um sentimento de nostalgia, como se tivesse experimentado algo melhor no passado e sentisse a escassez no presente. Sempre fui um pote vazio que aprendeu a criar a própria realidade e a se amar da forma como precisava ser amada.

Claro que não me esqueço das palavras de aconchego e carinho do meu pai, da simplicidade e honestidade dele. Sinto falta da voz dele, da forma singela de demonstrar afeto, do carinho pela natureza, das histórias de vida contadas, da tradição e da fé. Meu pai me deixou o presente de acreditar que tudo tem sua hora e seu momento, aceite e abençoe. Ele me deixou a fé, não uma fé cega, mas uma confiança no tempo da vida.

Tudo tem sua hora. Tudo tem seu momento.

A cada lição, pergunte o que deve ser aprendido; e, a cada alegria, agradeça.

Meu pai foi para o além, mas deixou muito de si, deixou em mim aquilo que não vai embora.

Andréia Silva

Avatar de andreiass7.ca

Published by

Categories:

Deixe um comentário