Oh… se eu subisse mais um degrau, eu chegaria ao topo.

Mas será que realmente era no topo que eu gostaria de estar?

Naquele dia, a euforia tomava conta – não como algo leve, mas como um misto inquieto de arrependimento e introspecção. Havia algo deslocado ali. Ela se sentia incompleta e nostálgica, mas, ao mesmo tempo, intacta na certeza de que a estagnação não deveria fazer parte da sua vida. E que ela, sim, poderia ser a própria revolução, a protagonista da sua própria mudança.

Mas, então, surge a fissura:

e se o topo – aquilo que sempre pareceu objetivo – fosse apenas o fim daquilo que a movia?

Porque existe algo quase cruel na natureza do desejo. Ele não vive da conquista. Ele vive da distância. Da antecipação. Da busca.

Como um instinto primitivo – o caçador não se move pela posse da presa, mas pela tensão da perseguição. E, quando a presa é alcançada, algo se dissolve. A euforia perde o sentido. A esperança se esvazia. O movimento cessa.

E talvez fosse isso que a inquietava.

Havia um otimismo estranho na sua voz, quase urgente, como se tivesse descido muitos degraus com pressa apenas para sentir novamente o impulso de subir. Não era exatamente o topo que a chamava – era o que acontecia dentro dela enquanto se movia em direção a ele.

E então ela percebe:

não se tratava de chegar, mas de continuar.

Estrategicamente – ou talvez inevitavelmente – ela se encontrava em um pedúnculo entre o passado e o futuro, oscilando como um pêndulo entre dois polos que nunca ofereciam repouso.

No passado, havia intensidade, mesmo na dor.

No futuro, havia forma, mas um pressentimento de estagnação.

E o presente… o presente não era confortável.

Era um espaço de ruptura.

Um espaço onde não se podia carregar tudo.

Dentro de um suspiro – longo, quase pesado – e de uma pausa que parecia reorganizar tudo, veio o insight mais honesto que já havia tido:

chegar ao topo não era vitória.

Era, possivelmente, o fim daquilo que a mantinha viva.

E talvez fosse por isso que algo dentro dela sempre hesitava no último degrau. Não por fraqueza, mas por instinto.

Então ela entende que não bastava continuar subindo.

Seria preciso morrer.

Morrer para os paradigmas que a puxavam para trás.

Morrer para as certezas que, disfarçadas de conhecimento, limitavam suas possibilidades.

Morrer para a ideia de que existe um estado final onde tudo finalmente faz sentido.

Porque o que ela sabia – aquilo que até então servia como base – também a confinava.

E, talvez, o verdadeiro movimento não estivesse em acumular respostas, mas em se desprender delas.

Assumir, com coragem, que não sabia de nada.

Não como ignorância – mas como abertura.

Porque só assim ela poderia renascer.

Não para encontrar um novo topo,

mas para voltar a sentir.

Para viver a experiência como se fosse a primeira vez.

Para permitir que a jornada voltasse a ter sentido – não pelo destino, mas pelo movimento.

E, no fim, talvez fosse isso:

não a conquista que sustenta a vida,

mas a busca.

Andréia Silva

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