Ele estava em um profundo desespero, como se vê nas descrições de um mundo que “enlouqueceu”.

Os ombros caídos, os pensamentos em espiral. Tentava mascarar a tristeza com um sorriso de canto de boca, uma tentativa audaciosa, quase patética, de esconder a dor.

Seu coração suplicava por ajuda, clamava por cura dos vícios morais e de valores. Mas, a cada tentativa, um chamado quase animalesco o puxava de volta aos antigos desejos, à mesma falta de controle, à busca incansável por saciar uma sede infinita. Para ele, era sempre uma briga: o certo contra o errado, o puro contra o profano… ah, o profano. Sempre houve nele uma inclinação ao erro, ao ilícito, ao imoral. O desejo pela lascívia era quase primitivo, animalesco, instintivo.

Às vezes, sentia nojo de si mesmo, do quão intempestiva e imoral era sua própria vontade: animalesca, desrespeitosa, pervertida, como um animal sem freios, movido apenas pelo vício e pelo cio.

Perguntava-se até quando a imaturidade e a explosão impiedosa de suas urgências continuariam a ditar o seu futuro.

Poderia se lançar ao passado e observar, com lucidez tardia, como a tensão sexual havia ditado cada passo da sua vida: amizades feitas e perdidas, relacionamentos iniciados e encerrados, trabalhos desperdiçados, sonhos quebrados, moralidade manchada, família estraçalhada.

Ele podia mentir. Sempre pôde. Mas até quando? Seria capaz de mentir para si mesmo? Ah, meu querido… a moralidade estava tão distante que, a esse ponto, ele já não distinguia quem realmente era, sua autenticidade, sua individualidade. A identidade havia se dissolvido no tempo: passado, presente e futuro. Ele estava preso em um emaranhado de pensamentos. Estava, simplesmente, perdido.

Agarrava-se ao perfil de um personagem criado para suportar o próprio declínio moral. Afundara em camadas infinitas de mentiras e dissimulação, sustentando-se com esmolas de sentimentos que, vez ou outra, o faziam lembrar de um amor que nunca existiu fora do campo imaginário e condicional que ele mesmo criou. Era a mania pelo controle: o que não controlava, dissimulava. Muitas vezes, nem ele próprio percebia a diferença, tudo se misturava em um caldo cínico de verdades e mentiras. Acredite em mim: boa parte vinha do “mundo das fantasias”.

Às vezes, sem aviso, surgia sorrateiro um sentimento de vergonha. Era como um tiro, quase ilícito, clandestino dentro de seu universo imaginário, já que remorso e culpa haviam sido excluídos do crivo de sua pseudomoralidade.

Mas, naquela manhã, uma onda de tensão o tomou. Uma tensão sexual seguida de uma “meia bomba”. A ironia era cruel, vê-lo em decadência, experimentando o próprio declínio. Seu corpo já não obedecia como antes, e os presságios da idade o envergonhavam naquela ereção flácida. Buscava no imaginário cenas incontáveis de encontros, intercursos, luxúrias, a inocência da sexualidade. Isso, sim, era quase ilícito, a inocência envolta em uma lingerie branca de algodão.

Era repugnância em ato puro. Mas, naquele estado precário e obscuro de pensamentos, não existia moralidade. Apenas o nojo do vício e do cio.

Dessa vez, porém, havia um prazer invertido, vê-lo em decadência, como o retorno inevitável de um bumerangue.

A decadência.

O grito.

Andreia Silva

© Andréia Silva / @andreiass7

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