
Eu olho para os lados e vejo lobos vestidos de cordeiros.
Lobos que caminham com bengalas – e essas bengalas se chamam religião.
Eles se apoiam nelas como se fossem escudos sagrados, acreditando que o verniz de devoção poderia ocultar a podridão de seus atos.
Em dias turvos, ostentam sorrisos cheios de cinismo, como se o credo pudesse absolvê-los da maldade que semeiam em segredo.
Usam a religião como fachada, um véu de santidade para esconder um caráter dissimulado, vazio de essência, distante da verdadeira fé.
A religião se torna máscara, capa confortável que encobre o vazio espiritual. Uma fé frágil, que nada tem a ver com o Deus vivo – o Deus que habita em silêncio dentro de cada coração, na intimidade que não se corrompe por aparências.
A vaidade religiosa os torna aleijados por escolha.
Amputam as asas e secam as raízes que poderiam levar sua alma à luz.
Preferem rastejar entre dogmas do que caminhar livres na verdade.
São deficientes espirituais, cegos pela soberba, surdos à voz de Deus, prisioneiros de aparências.
Transformam a fé em espetáculo, a oração em performance, acreditando que títulos e ritos podem substituir a entrega sincera.
Mas o verdadeiro Deus não se revela no orgulho espiritual nem nos palcos da religião. Ele habita no silêncio do coração. Na intimidade cultivada com esforço, na domesticação dos impulsos, no controle consciente das escolhas. Na bondade, na honestidade, na sinceridade de um coração intencionalmente entregue.
É nessa prática diária que nasce a conexão com a divindade, que floresce a verdadeira fé.
Diante disso, pergunto-me: qual é a dimensão da graça e da misericórdia divina, se eles se apoiam constantemente nessa “mercy” como se fosse um salvo-conduto?
Usam-na para se declarar imunes, como se não houvesse consequência em profanar o sagrado, machucar, enganar e agir com soberba.
São como anjos das trevas que pregam luz, mas respiram sombra.
A religião, quando usada como escudo, não aproxima ninguém da verdade. Pelo contrário: distancia.
O verdadeiro Deus não se encontra nos dogmas ou nas instituições, mas na voz interior, no templo secreto do coração.
Ali mora a essência, o divino que não se compra com rituais, que não se manipula com palavras, que só se alcança através da intimidade e da entrega.
Eis a lei eterna: tudo o que se planta será colhido. Quem semeia orgulho colherá queda. Quem semeia engano colherá desolação. Quem semeia amor colherá amor em abundância.
Não há escapatória para o retorno, pois o universo devolve a cada um o fruto da própria semente.
Uma coisa, porém, é certa: eu confio nessa justiça invisível que governa o cosmos. Cedo ou tarde, cada obra encontra seu reflexo.
Nenhuma máscara permanece para sempre.
A luz revela o que as trevas tentaram esconder.
Que meu amado Mestre continue derramando misericórdia sobre todos que buscam com esforço ardente e sincero, que não usam o santo nome em vão, que não blasfemam em hipocrisia, mas que desejam, de todo o coração, um caminho de luz.
Pois Deus é bondade, recompensa os passos verdadeiros e jamais exclui aquele que O procura com alma pura.
Mas aos que transformam a fé em palco e a religião em disfarce, restará apenas a sombra que escolheram habitar – e a amputação consciente de sua própria alma, que os impede de alçar voo na verdade.
Andréia Silva
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