
Era visível o cansaço e a inquietação a qual eu me encontrava, e eu não conseguia mais me encarar no espelho. Eu me jogava de um lado para o outro, subia e descia as escadas, olhava pela janela num ato de distração, checava meu iphone com uma frequência incomum… Eu precisava daquele frenesi e tensão deliciosa – nostalgia… Existia uma busca constante por algo maior e mais substancial, só mais um pouco… Eu vasculhava por todos os lados em busca de algo que ainda não tinha nome, nem cor – era uma busca aleatória por um prazer imediato.
Naquele inverno os dias eram mais longos e a routina exaustiva roubava-me qualquer brilho que uma amanhã ensolarada pudesse me trazer. Nevava naquele fim de semana e o ócio tomava de conta. Tomado pelo silêncio e ao som dos meus chinelos pelo assoalho, encontro-me aqui, eu e a solidão que eu tanto proclamei. Eu não poderia negar que eu escolhi estar onde estou neste momento.
Estava ali num imenso conflito. Era um conflito de valores, uma briga entre o sagrado e o profano. Naquele momento eu perguntava a Deus onde ele estava posicionado, pois eu precisava de uma brecha para me esconder da moral e a decadência me tomava pelos braços.
Eu era mesmo uma farsa/fraude? Ou eu seria um mero fruto dos meus desejos insaciáveis de lascívia? O que eu tanto procuro e não encontro? De que é feito o meu construsto/edifício moral? Estaria eu em decadência? Seria a ambição financeira ou desejo físico que me tomava? Ou eu estaria aqui pelos dois? Estou num dilema terrível!
Eu mesmo não acreditava nas minhas próprias palavras vazias e sem contexto, e me via repedindo as mesmas frazes de outrora com os muitos e exagerados: “prefundo, intenso, necessário, crença, verdade, honestidade, fé, rejeição, cristianidade…”.
Nos últimos dias eu passava a maior parte do meu tempo no subsolo[1]*, dentro dos subúrbios das minhas emoções. Eu me escondia do mundo e para os espectadores, eu usava a melhor máscara de acordo com o momento que me serviria. Tudo calculado meticulosamente.
Outrora eu me nomeava de louco: “estou enlouquecendo e já não sei o que faço”. Seria isso um subterfúgio para minhas ausências e rituais de silêncio? Como um louco pode tomar decisões eloquêntes?
Estava vivendo aquele conflito interno entre o amor e a lascívia; entre a ambição e a necessidade; entre as mentiras e as verdades. Mas a verdade é que, eu havia me escondido entre tantas camadas de mentiras que, eu já não sabia mais qual era a minha real identidade. Eu me perdi.
Estou aqui com medo de encarar a solidão, mas sinceramente, o meu maior medo era estar sozinho e encarar os meus demônios.
Eu sei que a minha mente desonesta tornará a minha alma pesada e cansada e aos poucos eu irei sucumbir derrotado pela vergonha e medo de me revelar e trazer a tona a minha essência.
Quem eu sou? Sou eu o meu ego e minhas dissimulações? Ou seria eu apenas humano com uma personalidade artística capaz de simular e dissimular?
Quem sou eu?
Eu sou aquele que ama no integro da palavra amor e despreza no âmago do egoísmo?
Quem sou eu?
Ed. Dostoyevsky Notes From Underground
Andréia Silva
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