Era um mundo muito triste. Ela, que sofreu desde criança, estava se sentindo mais uma vez sozinha, perdida em seus pensamentos. Aquela visão dela sentada, chorando atrás da porta, assombrava-a mais uma vez. Ela nunca pode sentir a intensidade do que era o amor e sempre foi discriminada na sua arte de pensar. Os pobres garotos acreditavam que poderiam enganá-la. Alguns conseguiram, outros não, mas será que foi enganada ou foi ela que se deixou enganar voluntariamente? Eles nunca saberão. Sua história sempre foi marcada pela solidão. Nunca gostou de ter muitas amizades, mas sempre se amparou nela mesma e em seu mundo. Quando descobriu o amor, ele veio em demasia e ela não sabia o que fazer. Quando o amor se foi, ela percebeu, também, que não sabia o que fazer. Perdida, sozinha e triste tinha apenas a companhia de seus dois gatos e de seu clone que, às vezes, a perturbava de tal forma que era melhor se olhar no espelho para saber se continuava sendo ela mesma. Mergulhada em seus mais profundos pensamentos, sua alma procurava, em vão, explicações para o que não poderia entender. Seus questionamentos estavam incomodando seu espírito, sua mente e seu corpo – mais uma vez detrás da porta.
O contador de histórias ainda lhe entregava medo, o que fazia o seu coração palpitar ao acordar, pois ele foi o pior pesadelo que ela já teve. Ela estava tentando matá-lo, pelo menos nos sonhos. A história mais uma vez se repetia. Ela ficava encantada por palavras e esqueceu, momentaneamente, que palavras são o que o coração não pensa e deixou ser levada pelo sentimentalismo. Ela se esqueceu que isso já havia ocorrido no passado. Será que seria enganada de novo pela bela retórica de palavras vazias?! Será? Ela lembrou o que havia acontecido. Palavras a conquistam intimamente, mas, ao se materializar, a destroem profundamente. E ela ainda poderia comer palavras, mas agora ela já tinha a experiência do passado e conseguia obter, nas entrelinhas, as respostas que buscava. Eles, carentes e fracassados, tentavam encontrar o prazer momentâneo, o sexo pelo sexo, o riso frouxo, pois seus vazios de alma eram apenas reflexos de suas falhas humanas perdidas pelo tempo que passou. Viveram demais e agora estão sós, ou acompanhados, porém sós e deprimidos em seu mundo decadente. Eles apenas não têm domínio pelos seus corpos, são tomados pelo vício e pelo cio e a desejam, mas ela aprendeu que é melhor pensar antes que as palavras a conquistem. Pobres homens decadentes! Triste fim.
Hoje ela continua a andar de cabeça erguida, apesar dos entraves da vida, à procura da felicidade, porém com os pés no chão, mesmo que tenha que usar a máquina para produzir as sensações que deseja em seu universo humano. Ela, ofegante, respira em um grito de liberdade!
Andréia Cardoso
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