As palavras já não estampam o que na verdade eu gostaria de dizer.

O discurso está preso e sem expressão. Contenho-me sem o direito de objeção. Não que eu queira intencionalmente reter as palavras, elas apenas não vêm à tona.

Aos poucos vou perdendo um pouco da sensibilidade e do gosto por pequenas coisas. Estou perdendo o gosto pelo gosto. Não é um desinteresse comum – são mágoas, vontades caladas, gritos abafados, são núcleos de um complexo –Caminhar ou retroceder.

Agora é tirar um tempo para organizar a vida em caixas, o que é dolorido. Fotos, fatias de lembranças, retalhos do passado. É o gosto amargo da saudade e da novidade que se misturam sem se unificarem.

E quando olhar para o horizonte torna-se complicado, eu uso as imagens prontas.

Um espião à margem tenta controlar tudo, ele quer guiar os meus olhos, mas eu ainda tenho voz. Eu canto aquela melodia solitária ritmada pela ladainha das antigas memórias de um passado não muito distante, mas sem lugar.

Caminhando em passos lentos quando é preciso, e correndo como um puma quando necessário, eu posso ver a vida em flashes. Os dias vão e vêem na mesma rotina que se repete paulatinamente, mostrando que tudo é sempre a mesma coisa. Eu vejo os objetos, memórias, os mesmos pensamentos, retratos, vidros e cacos… Eu vejo!

E… as coisas vão.

Andréia Cardoso

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