Nunca tive a pretensão de ser mesquinha, mas fui. Tenho muito medo desta minha mania de desacreditar que minhas palavras têm poder – um poder incrível que pode vazar e propagar pelo mundo. Se assim ocorrer, eu acabarei perdendo o controle sobre elas. O meu mundo passaria a não ser tão agradável. Meus sonhos não fariam o mesmo sentido. Eu teria apenas sonhos com simples desejos, aspirações inacabadas e impossíveis de serem tocadas.

Não quero dar muita importância a mesquinharias e ser econômica. Deixe para lá todo tipo de racionamento imbecil. Ser consciente pode virar obrigação e te fazer de escravo. Vivendo sob normas, você vira servo da insegurança, correndo o risco de fugir dos padrões e das expectativas imbecis. Você precisa provar e se auto-afirmar o tempo todo, precisa se mostrar bondoso, fazer sala, escolher palavras. Você não pode ser você.

Quando me desperto em consciência, eu não preciso de mais nada. Esta sensação me preenche. Eu posso acreditar em mim sem disfarce. Não preciso ser dispendiosa e me esforçar para acreditar que farei o melhor, para mais tarde, não fingir que tudo não ganhou o sentido que eu queria. Posso ser eu mesma.

É possível ter um coração tranqüilo? Acho que sim. Na verdade poderá não ser uma constante, como se seu coração fosse um cenário pronto, fixo e sem contrastes. É gostoso sentir emoções, brincar de derreter o coração e sentir espalhar todo esse fogo pelo meu corpo. É possível viver sonhos? Acredito que não mais, ou melhor, talvez. A realidade dói, porém é necessária. Saudade do meu mundo da lua.

É estranho sentir meus pés no chão quando se é acostumado a sonhar, ver graça em piadas sem graça,  esperar um veredicto errado quando o certo não faz sentido, ser julgada mais tarde só para distender o sofrimento e contar de um a três para ser atendido. Coisa maluca essas regras! Eu as critico, mas quase sempre as sigo, por um ato de involuntariedade e inconsciência.

Convenhamos que nunca saberei os motivos de tantas aspirações, o que me faz esperar tanto e ter tantos desejos, mesmo diante de tantas incertezas. Tudo isso me remete aos sonhos o tempo todo. Creio que deve ser o gosto pelo gosto. O pessimismo gelado sempre ousa estragar tudo e, como água fria, trás o despertar para a realidade. Será mesmo um estrago? Ainda é bom sonhar, desde que os sonhos não se transformem em pesadelos.

Hoje, não há como sentir frio. Também não há tempo para histórias. Apenas guardarei comigo esta sensação de querer ouvir e sentir, afagar e ser afagada.  Sim, adoro ouvir: EU TE AMO! O meu íntimo diz: É maravilhoso e acolhedor. Sinto-me abraçada e acariciada. Você é doce. Que mistura, heim?

Por vezes, tento lembrar e me esforço para tirar fotografias visuais. Tento guardar pensamento, mas parece que fotos e descrições são insuficientes – não se encaixam com perfeição. Eu fecho os olhos e tento. Azul! Seu rosto e o clarão. No céu o imponderável vôo de uma águia. Pensamentos voam e lembranças são disformes – fotografias pretas e brancas.

Meus sentidos afloram, tornando-me mais habilidosa. Sou atriz com inúmeras desenvolturas neste teatro. Tenho necessidades de fazer tudo de forma intensa e imensa. Sou palhaça! Porém, não existem mais tristezas e abalos. Eu acho até hilário! Normalmente me sentiria abalada, porém, hoje, não mais alcança seus objetivos. Pode até alcançar, e se alcançar… meu coração não espera nada, ele já se encontra fragmentado. Estou imune, e tudo isso só aumentaria a minha resistência.

Andréia Cardoso

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