Hoje, eu quero escrever algo que, na verdade, não sei o quê. O texto acabou se formando em minha cabeça e logo já estava certa que escreveria sobre o quanto é dolorido perder alguém que tanto amamos. 

Quero falar de julgamentos totalmente errados e preconceituosos. Sobre a mania de rotular as pessoas sem, antes, conhecê-las. Sobre quebrar promessas. Talvez nem fale sobre isso, mas, na verdade, gostaria de falar.

Logo que comecei a digitar, parei para pensar que tudo na vida não acontece por acaso e, se há perdas, talvez eu tenha feito algo para merecê-las, mas não seria incorreto colocar rótulos em mim. Não que eu seja de um todo errada ou mesmo culpada, acontece que, somente pelo fato de estar envolvida nesse todo complexo, sou culpada de algo. E as perdas, nesses dias tão quentes e secos, são mais sofridas.

Sinto a falta da umidade, do calor misturado ao frescor. Sei que eu posso ser forte, não para evitar lembranças, mas para ser eu mesma, porque é assim que deve ser, afinal, não sou imortal e a vida continua.

Nesses dias tão quentes e secos, sinto-me mais inspirada. Adoro ouvir a música popular brasileira. Já decorei refrões (…). Hoje ouvi no rádio uma nova canção de Osvaldo Montenegro, não me pergunte o nome, mas achei linda, tocante. Ele sempre é tocante!

Às vezes eu roubo algumas estrofes das músicas para mim. Eu me estampo nas canções, remeto-me aos lugares que deveriam ser meus por direito e assim deveriam ser.  Eu deveria insistir mais em querer mais. Sou fraca quando resolvo parar e descansar nos dias, dia após dia.

Eu não estou interessada em deixar de ser eu, forçar qualquer coisa, perder minha identidade. Confesso que me sinto sufocada muitas vezes, mas não me interessa uma transformação no meu caráter, na minha imagem, na minha conduta. Esta sou eu, e não estou interessada em deixar de ser quem sempre fui, porque sei que não teria mais volta, e depois, faria de tudo uma grande revolta sem volta. Criaria uma grande reviravolta que de nada valeria, porque não há o que se importe. Não há volta.

Não existe o meio termo. Ou existe o querer, o amor, o ódio, ou todos eles inexistem e ocupam os seus antônimos. Não vou insistir o tempo todo, esperar o momento certo, imaginar o humor adequado ou esperar horários pré-estabelecidos. É sufocante. Eu sou sufocante, mas sabe porquê? Acostumaram-me mal, deixaram que eu fosse assim, criaram rotinas. Não quero mais meias sensações, lembranças vagas.  Não quero mais ter algo para sufocar e me sufocar, e depois, lembranças são apenas lembranças que só nos amarram se deixarmos.

A vida é daqui para frente, o que passou, passou. Não estou afirmando que não passarei pelos mesmos caminhos, pois o futuro é incerto. Só não consigo inventar cores novas, sentir novas sensações, criar o novo sob um novo prisma, cogitar o impossível. Não tenho planos. Vivo o hoje, o agora.

Talvez eu deva ficar atenta, porque a vida passa e eu não controlo os dias. Não tenho poder sobre a morte, sobre o meu corpo. Preciso dar conta de que, os dias se vão, e é no hoje que me lembrarei do ontem. Saudades só aumentam os sentimentos que a gente inventa. Será que há alguma coisa para ser sentida, pensada, prevista? Não saberia responder, mas se houver, que dilacere, que tome de conta, que não desfaça, ou mesmo disfarce ou quebre. Espero apenas que dure, mas que dure para sempre. Sei que “o sempre, sempre acaba”, então, “que seja eterno enquanto dure, mas que dure para sempre”.

Eu tenho sede de amor. Minha sede é iminente e tenho aspirações que são essenciais para alimentar meus sentimentos. Para mim, não existe meias vontades, meios quereres, meias amizades, meia dor, meio amor. Gosto de saber se é, se quer, “se é ou não é”.

Alguns olham para o amor e o vêem além dos defeitos, não consigo compreender esse olhar. Amor para mim é enxergar os defeitos e amar tanto quanto as qualidades, mesmo que seja um sacrifício, mesmo que seja impossível, mesmo que seja ínfimo.

Sinto, por vezes, que as palavras não duram muito. São apenas palavras, vagas palavras. Elas não têm peso e se perderam no tempo como pluma ao vento. As memórias se apagaram, o presente não é mais um presente, o futuro não posso imaginar e o passado não tem memórias.

É intrigante eu insistir em fazer uma tempestade. Sei que seria extremamente aceitável, claro, se ela não estivesse contida num copo d’água, mas confesso que hoje consigo controlar a repulsa e o amor. Eu me permito o luxo de não mais me importar. Saiba que sou tão meiga quando sufocante, tão amorosa quanto carinhosa, tão dramática quanto antipática ou mesmo engraçada. Conheço os caminhos da bondade, mas também conheço por onde passa o desalento. Fujo desse caminho.

Queria a sabedoria de dominar os sentimentos e olhar para eles com os olhos da indiferença. Sinto, mas o amor cresce aqui dentro. Não o detenho, pois é impossível controlá-lo, como não se controla o vento. Nesse momento, gostaria de ser uma árvore frente ao vento para ao menos tocá-lo em sua última rajada.

Andréia Cardoso

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