De um laço forte e abrupto, eu me desvencilharei e retomarei passando por uma singela abertura onde foi consumida por uma seca forte, em um lugar que não sobra palavras e onde não é possível ouvir as batidas do coração.
Tento abrir os olhos e retomar ao túnel de luz. Ainda sinto calor em meu corpo como ondas, ele vai e vem. Já posso sentir o frio percorrer a espinha. Sou envolvida em uma manta gélida e a imagem que reluzia em meus olhos é ocupada pelas sombras.
Acordo nesse lugar. Sou recebida por ilustres rostos sofridos, olhares perdidos de seres que, como eu, não têm sombras. Uma névoa negra cobre meu corpo. Tento buscar na memória canções, preces e imagens com cores primárias. Deparo-me com uma amnésia. Percebo que foi apagada parte da minha memória e o único acesso que tenho é a tudo que ficou pendente no meu passado.
Percorro por caminhos áridos e castigados pela seca. Essa trilha parece não ter fim. Estou indo rumo ao sul. Nesse momento sinto a umidade do ar, o terreno é lamacento, cheio de carcaças e o solo é desnivelado. Ouço grunhidos, choros e sussurros. É aqui que eu ficarei até o momento da sentença.
O caminho que sigo revela uma paisagem inóspita, onde não há o colorido das flores. A brisa não acaricia esse lugar. As nuvens negras podem até ser tocadas e aqui não há beleza. As únicas cores que posso observar é o preto e o cinza que se mesclam as rajas brancas que cintilam alguns raios de luz.
Margeando a estrada que sigo, observo galhos retorcidos em meio a um cemitério de plantas mortas. Passo por andarilhos que seguem o mesmo destino. Suas roupas são como as minhas e caracterizam muito bem de onde somos. Os corvos cantam freneticamente a canção que incomoda os ouvidos de quem os ouve, mas, aqui, quase não se ouve nada além dos gemidos e choros.
Não sei quando inicia o dia e quando a noite cai. Não há tempo, não há esperança, porque, aqui, não há nada. É permitido estacionar-se nos dias, fazer reflexões do passado, porque o presente não pode ser mudado. Descansarei nos dias, se me for permitido.
Tem umas pessoas de branco que vêm nos visitar de vez em quando. Eles dizem fazer parte da luz. Não entendo como podem as trevas se misturar ao branco que reluz tanta pureza.
O rosto daquele ser excêntrico, que vêm nos visitar de vez em quando, ainda ocupa a minha memória. Tento definir a expressão daquela face, o que é impossível. É um misto de alegria e ironia que me causam estranheza, porque, nesse lugar, não há sorrisos.
Buscarei uma saída. Estou ciente de que tudo que inicia tem um fim e se há um fim há um começo. É de lá que quero partir e iniciar uma nova vida. Dizem, por aqui, que tem um “SER” que vende essa passagem e a moeda corrente é o perdão. Já me informaram onde posso encontrá-lo. Ele fica próximo aos trilhos do trem que parte toda madrugada. É para lá que eu vou.
Vou-me embora para o fim, onde posso dar início ao começo.
Andréia Cardoso
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