Ainda estou tecendo mentalmente as minhas palavras. Quero escrever algo, mas algo que eu ainda não disse antes. Hoje estou apta pelo novo. Bateu-me um espírito criacionista. Deve ser fruto do meu processo de reflexão.
Quero refletir sobre cada palavra, porque quero escrever algo despretensioso, delicado e evolvente, como são as coisas vindas do íntimo, mais íntimo que o coração – relação entre corpo e mente. Com capricho, tentarei usar palavras que nunca usei antes por desconhecê-las. Quero usar palavras sinônimas, mas que de alguma forma eu consiga expressar o que, hoje, eu sinto.
Preciso fazer com que as palavras me toquem, envolvam-me a fim de que eu possa descrever a face dos meus sentimentos mais profundos, e transportando-os para a escrita, quero tentar dimensionar o amor, amor que me consome.
Vivo um conflito. Temo que minhas palavras venham me confundir. Meu maior medo está em não ser compreendida, e que as minhas palavras não atinjam você da forma como eu gostaria.
Escrevo porque, nesses últimos dias, meus sentimentos tornaram-se latejantes que mal cabem em mim, e como ondas no mar vêm e se misturam ao meu conflito. É o sol, é o mar que se banham de luz, enquanto contemplo a energia que transborda dessa paisagem que me inspira.
Estou aqui sentada, admirando a praia (…). Permito-me esquecer do tempo, do mundo, de tudo. Hoje, quero estar apenas acompanhada dos MEUS SENTIMENTOS. Preciso me conceder o luxo de esquecer, esquecer de tudo que não me foi permitido viver. Quero esquecer os sonhos antigos. Preciso olhar o horizonte que está a minha frente, e essa maresia me envolve e me remete ao novo, um novo horizonte que surge.
Percebo que as coisas não param e continuam a correr distraidamente aos meus olhos, e às vezes não tenho tempo para refletir sobre o que passou. O vento passa e corre por entre meus cabelos, banha meu rosto, e essa sensação gostosa permanece por alguns segundos. Preciso que o sol me ilumine e me transporte para um paraíso ou para algum lugar em que eu possa dançar com o vento aquela boa música que sempre guardei para um dia especial.
Meus sentimentos estão estampados em um vestido cor-de-rosa, esvoaçante, e energiza-se descontraidamente em meio à chuva que começa a cair. Quando chove, penso que devo alimentar a minha sede. Preciso fertilizar com a água da chuva aquele solo que esqueci e tornou-se árido.
Muitas vezes até pensei em cultivar flores, mas como na estação passada não choveu, o sentimento ainda está guardado a espera da LUA NOVA. A minha inquietude me arruína, fazendo-me ficar triste e logo em seguida feliz. Preciso aguardar a próxima estação, pois sei que o inverno logo irá passar.
Encontro-me em dois pólos oscilando entre a dúvida e a certeza. Busco o novo! Às vezes, só um vácuo será capaz de me permitir sanar minhas incertezas, porque é na solidão que o processo de auto-reflexão surge. Pode ser que o frio me inspire quando eu quiser aquecer-me em você. Talvez eu busque o novo ou até queira o calor da lareira, mas hoje permito apenas a minha presença e aquecer-me-ei em mim.
Sinto um vento frio percorrer o meu corpo, busco saber de onde vem. Estranho não é? As janelas estão fechadas. Talvez alguma energia queira acordar-me para a vida e mudar o rumo da minha viagem. Não quero ir embora para PASÁRGADA, porque “amigos, não há amigos” e lá eu não serei amiga do rei. Preciso construir o meu hoje e mudar o meu destino. No próximo verão quero ir “além do rio, onde há um paraíso novo”, onde posso contemplar as palmeiras prateadas e os campos cheios de jasmins.
Está ficando complicado, porque têm dias que eu quero apenas o gosto do dia anterior, e têm dias que eu já nem sei mais o que quero. Há dias que tenho a certeza que quero apenas o que já tenho. Isto acaba por simplificar e tornar mais fácil! Sabe aqueles dias que apenas passam sem passar por nós? Aqueles dias que não são verdadeiros, são apenas dias que se repetem, dias que são apenas dias, e tem muitas pessoas que se assemelham com eles. Pessoas que não deixam marcas, e se deixaram, tentam de alguma forma apagar, mas deixamos para lá. Ficam apenas as coisas e pessoas que realmente importam e são merecedoras da nossa importância.
O que mais me dói é saber que o desprezo é o único alimento que me é servido. A gente abre as portas da nossa vida para as pessoas e algumas delas entram e fazem um estrago. Aqueles sentimentos que cultivamos com a água da chuva, que não está presente em todas as estações, foram extraviados. Sobra-nos apenas o terreno árido e infértil. Mais, sabe de uma coisa, na próxima estação tudo será diferente. Eu aprendi a eliminar o calcário do meu solo e a tornar fértil toda terra árida, fruto da experiência!
O amor é como terra fértil, se alimentado cresce tudo em sua volta, muda a paisagem, alimenta toda a beleza e alegria, mas tem que valer a pena. Não vamos cultivar urtigas em um solo que sempre foi ornado por jasmins. Os jardins devem ser preservados a fim de que mantenham sua beleza, e o jardineiro é responsável pelo que cultiva.
Hoje ainda sinto presente aquela sensação envolvente de um singelo abraço. Recordo-me de sorrisos, sorrisos tímidos. Sinto meu corpo possuído pelas lembranças e afagado de amor e poesia, e com singelas palavras eu sinto. Vejo todo o colorido em um prisma diferente, toco e sou tocada e, por várias vezes, fui e sou sacudida. Ainda me delicio com as lembranças dos cheiros, dos gostos. Tenho na memória os ruídos e sussurros. Doces lembranças, mas que o presente seja feito!
Andréia Cardoso
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