Intrigante o ritual fúnebre. Um dia desses estava a refletir sobre tal rito e cheguei à conclusão que a morte é mais um momento marcado pela hipocrisia.

Quando morre um parente distante, um colega de trabalho, aquele carinha apático, o segurança do prédio, o porteiro (…), ficamos tentando buscar na memória as imagens dessas pessoas e encontramos uma grande dificuldade. Sabe por quê? Porque essas pessoas atingiram status de invisibilidade. São seres inaudíveis, portanto, não deixaram memórias.

Chegada a hora do enterro, encontramos um grande teatro bucólico. O cenário é marcado por rostos tristes e desconhecidos. A partir desse instante, o falecido adquire o status da visibilidade. É resgatado pelas memórias e fará parte de nossas futuras recordações. Triste fato!

Como telespectadores da cena fúnebre, naquele momento, esquecemos de todo rancor, de todos os defeitos, da antipatia, dos episódios em que a desprezávamos e que por muitas vezes até desejávamos sua morte. Conseguimos elogiá-las, citar algumas palavras pronunciadas por elas… Interessante o fato de como os defeitos e toda mácula deixarão de existir, pois essa reflexão só acontecerá após a morte. Aquele ser, antes desprezível, passará a ser notado. Tarde demais!

Uma parcela ínfima, na proporção de nascimentos de pessoas, conhece a morte, e geralmente nós não sofremos por antecipação, porém, sofremos por mera estupidez e convenções costumeiras; e todos nós mortais, morreremos um dia, porque não se pode evitar a morte. Ela é a única certeza que temos.

Olhemos para quem nos profere um grito de socorro, um pedido de atenção. Resgatemos os laços fraternos. Que passemos a olhar o próximo antes de sua passagem!

Andréia Cardoso

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