Eu tenho medo do escuro, tenho medo das perdas, tenho medo dos sentimentos, tenho medo da solidão, tenho medo do desconhecido, tenho medo do futuro. Tenho tantos medos, mas o meu maior medo é de mim mesma, pois sou imprevisível e a minha imprevisibilidade me assusta.
Querido, não dê atenção aos meus medos. Talvez eu te faça medo. Não ligue para eles. Tenho medo que você não me queira tanto quanto eu quero você, mas também eu tenho medo que você me controle que guie os meus passos para que eu possa estar sempre disponível. Não gosto do seu tom sarcástico quando se refere as minhas distrações. Sou humana, meu bem! Preciso de horas vivas. Não posso estar presente o tempo todo.
Não gosto das suas brincadeiras sem demonstrações de intenções. O seu lado lúdico é sempre de mal tom, o que me faz pensar que sempre está brincando comigo, brincando de gostar, brincando com meus sentimentos. Talvez você até goste de mim. Acredito que há sentimentos. Também acredito que você se diverte comigo, não ligo, pois meu coração está tranqüilo. Não quero me expor e me sujeitar a migalhas ou mesmo fazer julgamentos.
Sei que o descompromisso te atrai, mas quero que você saiba que não há nada sem vínculos. Mesmo que sejam ínfimos, eles devem existir, pois estes formam os laços e não há corrente sem elos, não há amor sem dor, não há relação unitária.
O seu medo também é o meu medo. Você, sempre que está indo, volta atrás. É contido, não quer se envolver o bastante para não se complicar e não conseguir administrar, em você, as razões dos seus quereres. Com isso, sabe de uma coisa? Eu vou ficar na minha, porque sei que quando sentir-se envolvido, vai esquivar-se para não se perder.
A verdade doe e eu sei disso. Por que você é assim? Por que sinto tudo isso e mesmo sabendo da sua insegurança eu ainda insisto? Eu saberia dar todas as respostas às minhas indagações, só não saberia te responder se ainda quero você. Querer eu até quero, porém sei que será difícil, não impossível. Você é como todos os homens. É guiado por seus hormônios. Desgraçada testosterona! Você faz de mim uma vítima e ao mesmo tempo em que me incita me castiga.
Talvez até uma amiga na platéia consiga perceber minha derrota. Cara amiga, que me empresta seus ouvidos, diga-me o que ainda eu posso querer? O que eu poderia exigir? Quanto isso vai custar? Quando ele estará fazendo algo certo e apontado para mim? Quando eu serei alvo de suas pretensões?
Ah! Eu sempre tenho as respostas, apenas não quero segui-las. A minha teimosia me devora por dentro e por fora. Que gosto é esse pelo desamor, pelo sofrimento, pelo proibido? Ainda morrerei por um causa sentimental ou até serei vítima de crime passional. Coração atrevido, como pode se apaixonar por um amor proibido?
Eu poderia até seguir a risca o caminho que me levaria a você. Poderia curtir com você, omitir o que puder, simular, dissimular, não me deixar envolver. Será isso o que quero? Vem novamente o meu medo e acabarei me afogando em meus sentimentos.
Não nego as minhas dúvidas. Penso que mesmo você usando palavras doces não significa que me adora que quer pertencer a mim e me fazer pertencer-lhe. Sei que isso faz parte do jogo da sedução ou manutenção dela. Estou calejada, e quando isso mudará?
Vai mudar quando eu virar as costas e jogar o seu jogo. Você ficará frustrado. Talvez não tenha formulas para atrair você e nem mesmo para distanciá-lo. O jogo já está feito, basta-me observá-lo. A vida é um tabuleiro de xadrez. Ganha quem sabe guiar melhor o olhar junto ao pensar consciente. Posso estar enganada.
Eu não tenho mais jeito, amo, e meu amor sofre comigo. Você soube me envolver, me guiar até você. Esqueceu apenas de mostrar o caminho final do labirinto. Não quero ser insistente, pois não combina comigo. Acho até que fui longe demais, e depois de ouvir tantas declarações de sentimentos, isto me deixou muito confusa, e, como você, sempre que estou indo volto atrás. Sei que o amor existe, só não posso guiá-lo nesse momento.
É assim que tem que ser. A gente tem que trabalhar um amor frio, milimetricamente calculado, porque o envolvimento nos deixará sufocado. A força para o distanciamento do objeto está dentro de você. Ser forte não é virtude, é objetivo. Todo mundo agüenta e até reinventa um sofrimento, colocando-o na versão mais leve e light da vida. Tudo tem o seu lado bom. Nem tudo é mau por completo ou mesmo bom em seu todo, mas terá o seu preço.
Concordo contigo que o fogo dos sentimentos nos deixa confusos. Você não tem noção da força dos sentimentos, da força do poder de uma declaração, do poder de sua força e da intensidade de tudo. A gente ama e ama muito. Choramos, e por muitas vezes até amparamos.
Por vezes é necessário matar os sentimentos para viver a vida e acabar por reinventar novos prazeres, mesmo estando ciente da intensidade do amor. Eu falo isso somente porque sei do poder de sua força. Você é forte e eu também sei ser. Às vezes é necessário a gente mudar a nossa ética e pisar no amor, olhando o que vem pela frente e tentando enxergar o novo.
A vida ganha sentido quando se vive por se gostar de viver. Eu quero fazer feliz apenas quem merece, sem me preocupar com meus sentimentos e sem temer o gostar, o amar, o desejar, o querer e sem ter medo de afogar-me dentro de mim.
Não quero acabar como aquelas mulheres mal amadas que se relacionam duramente com outras pessoas e acabam por passar uma imagem amargurada. Estou num dilema. Se ceder posso te perder por deixar você pensar que vou te pertencer. Não quero ser propriedade, ser controlada, vigiada. Teu ciúme me sufoca. Livre-se dele ou viveremos o inferno. Você não confia em mim? Seu ciúme é uma constante. Como posso viver assim?
Não quero o autocontrole da situação, porque não tenho a intenção de controlar ninguém, como não quero ser controlada. O amor não pode ser sacrifício. Ele tem que valer a pena, ao passo que o meu querer tem que ser igual ao seu ou, ao menos, comparável. Não aspiro a unilateralidade sentimental, porque tenho medo da solidão e o escuro me assusta.
E hoje, não caibo mais em mim de tanto que me preenchi de você.
Andréia Cardoso
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